Hoje li a notícia que Loco Abreu entrará na calçada da fama do Maracanã. Um reconhecimento mais do que justo para esse gigante carismático que passou pelos campos brasileiros.
Goleador, se posicionava bem em campo, sabia jogar com a bola e sem ela, organizava o time, era o capitão independentemente de estar ou não com a faixa no braço. Loco era um jogador daqueles que elevava a moral de toda a sua equipe, seus torcedores iam ao estádio para vê-lo, sua torcida gritava mais alto porque ele estava em campo.
Mas Loco Abreu ia muito além disso, inspirava respeito nos seus adversários, as outras torcidas o admiravam. Como não se encantar com aquele pênalti batido de cavadinha na final contra o flamengo? Batida de Zidane? Não, de Loco Abreu mesmo! Como não se lembrar daquela comemoração, perdoem-me as palavras, “com los cojones?”. Um ótimo jogador e um craque do carisma e da moral.
Contra o meu tricolor, certa vez perdeu um pênalti batido de cavadinha. Acham que ele se abateu? Nunca! Loco tinha caráter, é corajoso. Ao ter um segundo pênalti marcado para o Botafogo, suspense no estádio, daqueles que param o tempo, “será que ele irá bater de novo de cavadinha?” se perguntavam todos, certamente sem refletir sobre a própria pergunta, pois em se tratando do Loco a resposta era mais do que óbvia: sim! claro! Loco bate de novo, de cavadinha, seguro de que ia marcar. Gol! Festa! Loco era assim, produzia e reproduzia lances que ambas as torcidas comentavam após os jogos, que nos fazem amar esse esporte e que se perpetuam no folclore do futebol.
As memórias são muitas e boas. Certa vez, com um Botafogo goleado em campo, a repórter aborda um Loco cansado, até de certo modo abatido pelo resultado e o pergunta: “Loco, como explicar essa tragédia em campo?”. Loco, pego de surpresa pelo uso de termo tão forte responde, com toda a dignidade do mundo e com a humanidade que é costumeira aos hermanos uruguaios: “Tragédia!? Não. Perdemos. Isso aqui é uma partida de futebol, às vezes se perde, se joga mal, é ruim, mas tragédia é quando perdemos um ente próximo, quando ocorre algo ruim às pessoas. O esporte é alegria!”. Simples, direto, humano, um desportista na melhor acepção da palavra. Deleite para os ouvidos e para a alma.
Outra história maravilhosa que já ouvi, mas que nunca pude confirmar, é sobre o seu papel de colunista no Uruguay à época em que jogava por lá. Me contaram que Loco escrevia colunas avaliando sua própria atuação em campo: “Hoje joguei bem, dei passes, fiz gols!”, “Hoje a derrota foi inevitável, tive uma atuação ruim, podia ter tocado a bola daquela forma”. Essas palavras ditas por qualquer outro poderiam parecer presunção, marra, gerariam comentários críticos dos demais jogadores, jornalistas, técnicos, mas para o Loco não. Loco tinha, por natureza, a liberdade poética dos melhores escritores, dos craques botafoguenses, dos garrinchas que jogam com as pernas tortas. Reunia toda a complexidade do ser humano e as apresentava como espetáculo ao público.
Que bem que ele fez ao futebol mundial e que prazer tê-lo visto ao vivo por aqui. O ídolo verdadeiro é aquele que transcende o futebol jogado em campo, é amado por seus torcedores e admirado pelos adversários. Seja bem-vindo Loco Abreu ao panteão dos grandes craques que habitam “o Maior do Mundo!”, com você a calçada da fama do Maraca fica ainda maior!

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